Representatividade importa? A naturalização dos corpos na cena musical brasileira

Resenha “Lembra Aquela Vez”, Adam Silvera
29 de janeiro de 2018

Vozes transcendentes”/ Divulgação: hoo editora/Universo dos Livros

(Foto/capa: “Vozes transcendentes”/ Divulgação: hoo editora/Universo dos Livros)

Confesso que demorei um pouco pra escrever sobre o livro “Vozes Transcendentes: os novos gêneros da música brasileira” (hoo, 2018), de Larissa Ibúmi, porque a proposta do livro, depois que você a compreende (e levei algumas leituras pra entender o projeto do livro), permite vários encaminhamentos. As múltiplas vozes que vão falar por meio da escrita de Larissa, dos artistas que são apresentados através das crônicas escritas em primeira pessoa, possibilitam diversos entendimentos, poderia dizer mais que catorze entendimentos (o livro que traz catorze crônicas de artistas que ganham cada vez mais espaço no cenário musical brasileiro e servem de modelo pros novos gêneros que, enfim, já podem “sair do armário”).

Digo “já podem sair do armário”, porque tal como o termo, já está um pouco clichê o seu uso dentro do universo LGBTQI+, como falar de representatividade, sem uma certa profundidade que lhe cabe, também um clichê, dependendo de como é falado. E clichê nada mais é que lugar comum, uma ideia pronta, amplamente difundida, mas que, se não for avaliado o contexto, pode se tornar uma metáfora de desuso: então é que ninguém mais se preocupa por que é uma representatividade, por que ela é importante, e só reproduz, de forma mecânica, que se trata de representatividade.

O livro de Larissa ilustra essa preocupação, que não é só dizer que os artistas mostrados são representativos dos novos gêneros que são ouvidos hoje dentro da MPB, mas explorar os significados de representatividade, como vai ser colocada em cena, como os atores desses novos gêneros vão falar de suas vivências, os recortes, o encontro com a música, como foi alcançar os lugares que ocupam, que podem vislumbrar. A autora, então, apresenta sua obra fazendo um alerta ao leitor: “Não há a pretensão de homogeneizar a cena musical, por entender quão diversa e multifacetada ela é. Por isso mesmo, refiro-me ao termo cena como metáfora de um espaço que comporta atores distintos, executando diversas funções e ações, mas que são unidos por um sentido, em um mesmo espaço-tempo. Essa cena é também um movimento plural, que se constrói coletivamente por meio de um discurso potente de empoderamento e de combate aos preconceitos e violências de gênero (p. 14).” E, sob esse pilar de “cena”, que as histórias de catorze artistas vão ser faladas, mas dentro de um projeto de texto que vai configurar o próprio livro; como essas narrativas vão ser postas e, os atores, seu próprio espaço livre e, ao mesmo tempo, performático, no qual suas questões e temas dialogam com o grande público. “Não guardo a pretensão de nomear o movimento, mas transmito, nas próximas páginas, o que pensam os protagonistas sobre a história que estão construindo (p. 23).”

 

LGBTQI+

Representatividade importa? Antes de ser dada uma resposta, que não é simples, como muitas vezes é inflado pelas militâncias nas redes sociais, Larissa opta por explicar, na forma de glossário, o termo LGBTQI, mas que não deve ser utilizado para categorizar artistas nem pessoas, colocá-las em rótulos, caixinhas, apenas orientar o leitor sobre o significado dessas letras, a sigla. Dizer ou se assumir LGBTQI numa sociedade que flerta com o conservadorismo e o discurso cis-hétero-normativo, é, antes de mais nada, se colocar como a “outra parte”, “outras vivências” em relação ao que está mais bem configurado na cabeça do leitor. É dizer, por exemplo, que existe e vai continuar existindo os casamentos entre homens e mulheres cis, mas há outros relacionamentos igualmente naturais e humanos, outras formas de se pôr na sociedade, de se relacionar, de dizer que existe um mundo mais plural e diverso. Dizer-se LGBTQI é, antes de mais nada, orientar as pessoas quanto à existência de outras vidas, de outras histórias, por que existe diversidade, por que falar dela também é ocupar um território não somente político, mas o direito de poder existir como é, como se coloca no mundo. O leitor deve se atentar ao glossário pra saber o que os termos querem dizer durante a leitura do livro, jamais para colocar as pessoas e, no caso, os artistas em rótulos. Sexualidade e gênero são moldados pela cultura, então, mesmo diante uma definição mais fixa, as pessoas podem transitar, não se encaixarem somente nas definições de lésbicas, gays, bissexuais ou, no caso dos gêneros, somente como cis ou trans. Há um enorme degradê no qual as pessoas podem expressar suas identidades e sexualidades, por esse motivo, não cabe a uma sigla tentar esgotar todas as definições, apenas orientar sobre um universo que se torna cada vez mais visível. Saber, como alguma proposição, se representatividade importa. Se sim, por que importa.

Foto/Divulgação: Larissa e eu, no lançamento de Vozes Transcendentes.

(Foto/Divulgação: Larissa e eu, no lançamento de Vozes Transcendentes, na Livraria Cultura)

Das muitas leituras possíveis ou encaminhamentos que podem ser feitos para a obra, por exemplo, o recorte no contato com a religião de vários desses artistas e como expressaram sua relação com a fé – de aceitação ou ruptura – ou a própria descoberta e contato com a música, que poderia muito bem englobar essa resenha, optei por falar do corpo, que é uma palavra recorrente no livro e ajuda a estruturar o projeto de texto da obra: os corpos dos artistas que vão entrar em cena e contar um pouco de suas histórias.

O livro, como um todo, parece um corpo em movimento, que se ergue, se coloca na frente de um espelho, cresce, se desenvolve e se transforma, como a própria vida, mas continua experimentando suas potencialidades, suas possibilidades de mudança; um corpo que não é estático, mas aberto a andar pelo mundo, caminhar no frisson da própria experimentação. Corpos que podem assumir novas formas e, aquilo que podia ser mais comum e esperado, modificar-se no palco onde a própria existência assume o eu-lírico.

Descobri ali, naquele trabalho corporal, todo um mundo novo, que se abriu para mim. Mudou minha relação com estar em cena. Em 2013, comecei a ver outros trabalhos que versavam sobre a desconstrução de gênero. Comecei a ler e a entender o que era gênero e vi que isso já estava no meu trabalho há muito tempo. Eu só estava deixando aquilo sair do meu corpo. Hoje, eu consigo olhar para aquele meu movimento com mais consciência (Crônica de São Yantó, p. 70).”

A ideia do corpo vai estruturar toda narrativa presente no livro, os artistas que vão falar através das crônicas. Todos, em algum momento, vão apresentar seus corpos, como se movimentam em cena e, por esse motivo, o termo que dá uma unidade ao trabalho da Larissa. Apesar dos corpos serem diversos na obra, é a ideia do corpo em movimento que dá um sentido universal ao trabalho. Os corpos importam porque estão em movimento sempre ao longo da obra. “Há uma convergência hoje, muitas pessoas falando sobre gênero e os trabalhos se alimentam entre si. Falamos sobre sexualidade de um jeito direto no palco hoje, mas, por exemplo, durante os anos de 1970, tudo ainda era de forma velada (Crônica de São Yantó, p. 72).”

Tudo está se movimentando e movimentando o leitor para a leitura desse corpo em movimento, o movimento dos corpos. Corpos que deixam de ser meros substantivos e passam para a ação, o verbo, caminhar do passado de como os LGBTQIs eram vistos, para o presente dos lugares que começam a ocupar e o que esperam pro futuro, por que esses artistas estão registrando suas marcas na história da música brasileira, por que falar de representatividade importa.

As grandes mídias veem que estamos em um movimento de não se calar. Estamos falando de transfobia, de racismo, de preconceito. Não estamos deixando e não vamos deixar que as grande mídias nos maquiem a seu bel prazer (Crônica de Liniker, p. 65).”

E, como corpos em movimento, a crônica é o gênero textual escolhido pra esse trabalho. É através da crônica que fatos de vida e posicionamento dos artistas vão ser revelados ao público. E, com uma estrutura preponderante: a apresentação do artista, sua história familiar e os primeiros contatos com a música, seu encontro com a diversidade e a descoberta da própria identidade, trecho das suas músicas e como a diversidade é retratada, a luta pela representatividade que não se dá só no campo artístico, mas o signo da própria criação e (re)existência.

A crônica é o gênero que consegue transitar entre o jornalismo, a pesquisa, a opinião e a literatura. E, é através da crônica, que a escritora vai encadeando o movimento dos corpos, a transição dos corpos no tempo e espaço das narrativas.

Não me reconheço necessariamente nem enquanto homem nem enquanto mulher. Entre ser homem e ser mulher, prefiro ser eu, em toda a minha complexidade. Têm coisas do universo feminino que estão no meu corpo, têm coisas que são ditas masculinas que podem estar no meu corpo, mas eu me reconheço no território do feminino. É esse território – um amplo território, assim como existem muitas formas de mulheridades, de ser mulher, muitas formas também de ser homem, e existem muitas outras formas de existir sem ser necessariamente mulher ou homem – que causa uma confusão entre as pessoas. E é esse o lugar que eu ocupo, me reconheço e que é o lugar da transição (Crônica de Linn da Quebrada, p. 78).”

Corpos que vão experimentar a transição, o estranhamento, a própria percepção de si, mas também a violência, o isolamento, a culpa, para enfim aceitar o desejo, encontrar a paz de poder viver com seus próprios corpos.

Eu falava para mim mesma: vai doer, vai doer. Pensava na minha família o tempo todo. Vai doer? Vai. Vai ser constrangedor? Vai. Mas quem quiser passar além do bojador, tem que passar além da dor! É perigoso? É. Vinha Guimarães Rosa dizendo ‘Viver é muito perigoso’. Mas quem quiser passar além do bojador, tem que passar além da dor! Então me disse: Assucena Assucena (Cônica de Assucena, de As Bahias e a Cozinha Mineira, p. 50).”

 

Representatividade importa?

Sempre que me deparo com essa pergunta (e, em Vozes Transcendentes, essa pergunta pode muito bem ser feita, em toda obra, não só de forma retórica), tento me desviar do clichê de dar a resposta mais esperada, mas entender por que importa, explicar por que importa de verdade. Preciso sempre avaliar o contexto e, como fiz quando escrevi Terezinha pra hoo, sempre que me pedem pra falar do queer, explico o contexto no qual ser queer pode ser entendido. A representatividade assim como o queer precisam ser explicados todas as vezes, o contexto no qual estão inseridos. O queer, ou transviado, é quem “escapa” às normas da dicotomia de gênero e do padrão da heterossexualidade e que, se não fosse o excesso de preciosismo com o termo de alguns militantes, poderia muito bem servir de sinônimo ao espectro LGBTQI+, ou seja, poderia muito bem ser um termo universalizante para todas as identidades e sexualidades que escapam do binarismo de gênero e da heteronormatividade. Mas enfim, não é o intuito aqui discutir os pormenores de determinadas escolhas de nomes, sim, falar por que representatividade importa e, no cenário musical, por que a naturalização dos corpos se faz importante.

Eu sou um homem cisgênero, gay, nordestino, artista. Penso que essa coisa de identificar e colocar-se em caixinhas, não faz tanto sentido quando se trata de arte. Claro que na vida real é importante para todo mundo, mas o que gosto de fazer artisticamente, para além de misturar as formas de expressão ditas masculinas e femininas, é criar uma criatura, uma espécie de entidade. Como um ET, como Bowie. Ali não é um homem nem uma mulher, é uma criatura, que está chamando todos que estão à margem para dar as mãos, se unirem nessa jornada. É criar uma personagem que esteja além do gênero. Uma criatura que agrega pessoas que estão às margens. E, até na minha vida pessoal mesmo, no meu grupo de amigos, gosto de estar próximo às pessoas que estão na margem dos padrões e às margens das regras da sociedade (Crônica de Johnny Hooker, p. 157).”

Representatividade importa quando pessoas que foram colocadas à margem da sociedade, podem encontrar alguém que, como elas, conseguiu mudar a realidade, fazer sucesso, ocupar espaços antes negados; sentir orgulho e descobrir que pode ser como é no mundo.

Muitos artistas, na obra, relataram como foi descobrir que não eram os únicos que enfrentavam problemas de aceitação, mas uma parcela importante da sociedade ainda é muito oprimida devido à expressão da sua sexualidade, do seu gênero e, na mínima expressão de sua pluralidade, sofrem agressões de todas as formas e, algumas vezes, custando a própria vida. Representatividade mostra o outro lado, que dá pra lutar em conjunto, dizer não à opressão, dizer que é possível ser feliz se aceitando, aceitando o outro como é. A naturalização dos corpos, que na obra se inscreve no cenário da música brasileira, um motivo de orgulho. Representatividade só importa se a individualidade for colocada em segundo plano para que o coletivo alcance sua própria voz, sem precisar de tantos intermediários, mas podendo falar por si mesmos, sem medo. Representatividade só importa se as pessoas se sentirem motivadas a lutar por suas próprias vidas, histórias, outras vidas que, como elas, buscam de forma ética a felicidade. Representatividade só importa se as pessoas se sentirem convidadas a falarem de suas próprias vidas, sem intimidação, não sendo mais invisíveis para a sociedade. E só a naturalização dos corpos, o caminho possível e ético para alcançar a representatividade que importa.

Foto/Divulgação: Tiely e eu, no lançamento de Vozes Transcendentes.

(Foto/Divulgação: Tiely e eu, no lançamento de Vozes Transcendentes. Tiely é um dos artistas que conta, numa das crônicas, como é (re)existir como artista LGBTQI+ no Brasil)


Com a palavra…

Mulher Universal, Astronautas do Varal…

Comendo caviar ou carne seca ao natural.

Atacando em bandos, alcateia ou esquadras.

Sempre no comando de todas as jornadas.

Todas são selvagens em busca do poder, ultrapassam a passagem, rainhas do saber.

Mude de cidade, ou prepare seu corpo.

Ignoram a piedade ou pedidos de socorro!

(Astronautas do Varal, Tiely, p. 93).

Josué Souza
Josué Souza
Josué Souza nasceu em São Paulo aos 9 de setembro de 1986. Iniciou a carreira de escritor aos 15 anos, participando de concursos literários escolares. Aos 21, leu todas as obras publicadas em vida de Clarice Lispector, de quem é fã incondicional. Publicou Aos cuidados e As cores de ser: eu-livro, sob pseudônimos, além de publicações e participações em coletâneas. Em Terezinha, apresenta a diversidade de pensamentos e manifestações da vida humana no cotidiano.

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