Resenha “Lembra Aquela Vez”, Adam Silvera

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(Foto/capa: “Lembra aquela vez”/ Divulgação: Rocco)

(Foto/capa: “Lembra aquela vez”/ Divulgação: Rocco)

Oi, gente, como prometido, quero falar da obra “Lembra aquela vez” (More happy than not, título original), do autor norte-americano, Adam Silvera. O autor é dono de uma escrita original e muito “descolada”, sem muita preocupação com formalidades excessivas (o que, no caso da obra, é uma qualidade) e, com certeza, vai conseguir falar diretamente com o público jovem, que pode se identificar muito com sua escrita: bastante direta, ou como se diz, “papo reto”.

(Foto/Divulgação: Adam Silvera)

(Foto/Divulgação: Adam Silvera)

Na obra, ele conta a história de Aaron, um jovem de periferia que mora no condado do Bronx, em Nova York. E, a questão social, vai ser um dos temas preponderantes ao longo do romance, de como o jovem Aaron vai precisar, por vezes, lidar com dificuldades financeiras e sociais: um pai que cometeu suicídio, uma mãe com jornada de trabalho dupla e um irmão mais velho que não é exatamente solidário e que passa a madrugada jogando no computador (até mesmo pra lidar com a perda do pai).

Os amigos do conjunto habitacional onde mora também não são exatamente compreensivos, e alguns conflitos são mostrados nessas relações: por exemplo, pedir orientação sobre a primeira vez com uma garota, mas que vão ser dadas dicas machistas, e Aaron não tem coragem de fazer as coisas que disseram com sua namorada Genevieve.

Sim, Aaron é um jovem que tem uma namorada, uma moça muito legal, chamada Genevieve, que o apoia em praticamente tudo, mesmo quando ele dá suas “bolas foras”. Muito mais que namorada, ele tem nela uma grande amiga pra ouvi-lo. É uma jovem que gosta de artes e, por esse motivo, vai viajar, por um tempo, pra aprimorar suas habilidades com pintura.

Nesse momento, mesmo podendo falar com seus amigos do bairro ou seu irmão mais velho, é o período que Aaron se sente sozinho, não tem mais Genevieve, sua confidente pros momentos difíceis. Acaba conhecendo Thomas, e seus sentimentos entram em conflito, porque se descobre apaixonado por ele. Tornam-se amigos, mas esse sentimento vai aflorar, e Thomas vai recusar Aaron. É nesse momento que Aaron vai sentir a homofobia de seus amigos, que vão dar uma surra nele pra que volte a ser “homem”, volte a ser “hétero”.

(Foto/Divulgação: Adam Silvera/More happy than not)

(Foto/Divulgação: Adam Silvera/More happy than not)

Lembra aquela vez”? É depois disso, de ter quase morrido após a surra, que Aaron procura a clínica médica Lateo, uma clínica especializada em realizar procedimentos que suprimem memórias tristes. A clínica não apaga memórias, mas impede que pessoas se lembrem de coisas tristes, após serem submetidas a um procedimento da clínica. Aaron vai se lembrar que já esteve na clínica, e foi submetido ao tratamento pra esconder lembranças, mas quais lembranças? “Lembra aquela vez”. E que, agora, quer se esquecer de que se apaixonou por Thomas, voltar a ser “heterossexual”.

O final da trama é surpreendente e mostra, pela escrita de Adam Silvera, como o autor sabe falar diretamente pro público jovem-adulto, tocar em questões de interesse desse público, como aceitação, identidade, tolerância e relacionamentos, ou mesmo a questão da homofobia, que vai ser muito mais delicada pra alguém da periferia que cresceu em ambiente machista e não conta muito com apoio financeiro, ou de familiares e pessoas próximas, pra entender sua sexualidade em formação, sua descoberta.

Pensar num mundo onde a rejeição, a homofobia e a intolerância são muito presentes, é falar como ainda precisa de obras que abordem diretamente esses temas, pra pessoas que estejam se descobrindo, tentando se colocar no mundo com suas questões, e Adam Silvera, no seu romance de estreia, acerta ao falar disso sem rodeios.

Sim, “Lembra aquela vez” é a obra de estreia do autor, e um convite a ter empatia pelas pessoas das mais diferentes personalidades, identidades e sexualidades, os seus conflitos pessoais.

Josué Souza
Josué Souza
Josué Souza nasceu em São Paulo aos 9 de setembro de 1986. Iniciou a carreira de escritor aos 15 anos, participando de concursos literários escolares. Aos 21, leu todas as obras publicadas em vida de Clarice Lispector, de quem é fã incondicional. Publicou Aos cuidados e As cores de ser: eu-livro, sob pseudônimos, além de publicações e participações em coletâneas. Em Terezinha, apresenta a diversidade de pensamentos e manifestações da vida humana no cotidiano.

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