Julie Anne Peters e as questões conflituosas em “Não conte nosso segredo”

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Julie Anne Peters e as questões conflituosas em “Não conte nosso segredo”

Acabo de terminar de ler um romance incrível chamado “Não conte nosso segredo” (Keeping you a secret), de Julie Anne Peters. Acabo lendo tudo que é escrito por esta autora para jovens e, de verdade, ainda bem que a hoo comprou os direitos de tradução de “Keeping you a secret”, porque esse livro pode ajudar muitas adolescentes lésbicas a se aceitarem lendo histórias de personagens que as representem nessa fase de suas vidas, e ainda escassas no mercado editorial brasileiro de uma maneira geral. É um livro muito bem escrito, que chega a emocionar algumas vezes.

Não conte nosso Segredo/Keeping you a secrete (hoo editora/Julie Anne Peters Official Web Site)

Não conte nosso Segredo/Keeping you a secret (hoo editora/Julie Anne Peters Official Web Site)

Peters não é uma autora de histórias “bonitinhas”, seus livros nem sempre acabam bem devido aos problemas que coloca e, por vezes, impactam de forma visceral a vida de suas personagens. A orientação sexual é um tema recorrente em quase todas as suas obras, muitas vezes como pano de fundo, mas se desenrolando através de questões familiares com certa dose de complexidade.

Outros livros de Jullie Anne Peters (Jullie Anne Peters Official Web Site)

Outros livros de Julie Anne Peters (Julie Anne Peters Official Web Site)

“Não conte nosso segredo” é uma história de amor entre duas jovens em fase escolar. Ceci é muito bem resolvida com sua sexualidade, é a lésbica que se pode dizer, totalmente fora do armário! Enquanto Holland, a lésbica que quer esconder sua relação com Ceci, que vai ser algo muito difícil para as duas. O romance apresenta também o papel das famílias: pais que aceitam a homossexualidade e outros que cortam relações por conta disso.

Peters levanta questões importantes da vida adolescente, que, em geral, é a fase que a pessoa deixa de ser criança e começa a assumir algumas responsabilidades. É a fase de início do processo autoconhecimento: conhecer sua identidade, questões pessoais, sua sexualidade; a construção da personalidade e poder tomar algumas decisões sem precisar de um adulto vigiando.

Holland está fazendo malabarismos com um horário escolar difícil, responsabilidades como presidente do conselho estudantil, formulários para preencher de universidades, dentre elas a desejada Universidade de Ivy League, e uma mãe intrometida. Ceci é a lésbica que se transfere para sua escola. Uma paixão envolve ambas, que começa com um flerte, mas se desenrola numa relação intensa, com muita emoção, típica de paixões adolescentes.

Holland conquista a cumplicidade de Ceci, consegue convencê-la a manter em segredo seu namoro com ela, no entanto, isso vai ter consequências graves: Holland vai ser expulsa de casa, enquanto Ceci fica esperando que ela tome uma posição diante disso. Acontece o período de ajuste à “nova” realidade. Holland começa a compreender que na verdade se sente atraída por meninas, fazendo com que seja ela a beijar Ceci. Ceci, mais “experiente”, sabe que isso pode levar à intolerância, o que acontece de fato.

A lesbofobia é o extremo da intolerância, nesse caso, e acontece quando Holland confessa seus sentimentos para a mãe, sendo expulsa de casa. E, sem que o leitor fique pré-julgando essa mãe, Peters traz elementos para que se discuta por que a intolerância acontece, por que é difícil para um LGBTQ se assumir no mundo, para a família, ainda mais sendo adolescente. Nem sempre o que se deseja como final, é o que acontece, a realidade tende a ser mais dura, mais difícil, por isso existe o viés da intolerância. Ser e poder se assumir um LGBTQ, na sociedade, acaba sendo uma experiência para todos.

A verdade que Peters tenta passar é que há sempre uma expectativa criada em cima de pessoas, e isso começa muito cedo, e pode ser muito cruel. Quando Holland se entende como lésbica e assume sua orientação, faz com que todas as expectativas da mãe, que ofereceu à filha tudo que não pôde ter na sua idade, acabem. Então, é preciso entender o lado dessa mãe, para que não seja cometida intolerância também, tão nociva quanto não aceitar a homossexualidade de Holland. Peters não quer que o leitor condene a família de Holland, mas entenda que também é difícil para essa mãe saber que os sonhos que imaginou para a filha não vão se cumprir como ela desejaria. A intolerância nunca é uma causa, mas uma consequência de vários processos, como apresentados na trama, e que, infelizmente, os LGBTQ sabem que estão mais suscetíveis a ela.

(Foto/divulgação: hoo editora)

(Foto/divulgação: hoo editora)

Os que os leitores vão apreciar é a habilidade que Holland vai desenvolver para se ver livre das expectativas dos outros, e que podem aprender muito sobre o espectro das relações e problemas com os quais um LGBTQ e, neste caso, uma adolescente lésbica pode enfrentar. Mas como a autora vai apresentar isso e dizer sua principal mensagem aos leitores, vou deixar que descubram em “Não conte nosso segredo”.

Josué Souza
Josué Souza
Josué Souza nasceu em São Paulo aos 9 de setembro de 1986. Iniciou a carreira de escritor aos 15 anos, participando de concursos literários escolares. Aos 21, leu todas as obras publicadas em vida de Clarice Lispector, de quem é fã incondicional. Publicou Aos cuidados e As cores de ser: eu-livro, sob pseudônimos, além de publicações e participações em coletâneas. Em Terezinha, apresenta a diversidade de pensamentos e manifestações da vida humana no cotidiano.

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